Meu amigo Pedro

Comemorado ontem, o Dia do Trabalhador me lembrou de que faz sete anos que cheguei ao Vale do Paraíba, atraído por uma proposta de emprego. Sem tempo, aluguei pela internet uma “kitnet mobiliada”. Quebrei a cara: a geladeira foi entregue sem prateleiras e gavetas, o fogão não tinha botijão de gás e a TV, que até ligava direitinho, estava sem antena.

Sem opção, achei melhor procurar um novo lar. Assim, nas andanças pelo bairro, conheci o Pedro, um vira-latas que chorava baixinho, do lado de dentro do portão, tentando alcançar um osso que, sabe-se lá como, ele jogou para fora de casa. Resgatei e fui logo devolvendo. Ele jogou para o outro lado e passou a brincar comigo desesperadamente. Vai ver sabia que, nesses primeiros dias por aqui, eu também estava roendo o osso.

E assim ficamos amigos.

Todos os dias, antes do trabalho, fazia meu caminho de forma a passar pela casa do Pedro. E, pode parecer esquisito, ele ficava me esperando. Juro, juradinho! Era divertido.

No fim, acabei encontrando um novo imóvel, com botijão de gás e tudo, mas longe do Pedro. Mudei de casa, de bairro, mas não mudei de amigo. Assim que caiu meu primeiro salário, passei no mercado e enchi o carrinho de ossos, brinquedos e fizemos a maior festa no portão. E fui embora sorrindo, imaginando a cara dos reais donos do Pedro quando encontrassem o quintal forrado de quinquilharias caninas.

Mas, antes de ir, me lembro. Virei para trás e disse: “Valeu, Pedro! Sempre que der, passo por aqui! Até lá, por favor, não jogue os brinquedos que te dei pela fresta do portão!”

Por favor, fique em casa na pandemia

Esqueça a questão política, tanto faz em quem você votou, mas fica em casa! Tanto faz a sua fé, no que você acredita e até se você não acredita em nada: fica em casa!

E não relativize! Quem está nas ruas hoje é quem precisa. É um esforço da sociedade. Alguns precisam ir para fora para que muitos possam ficar para dentro. Fica em casa!

E daí, da sua casa, você pode e deve cobrar seus governantes por medidas de proteção econômica, distribuição de renda, bolsas, auxílios, suspensão de dívidas, manutenção de consumo, políticas trabalhistas e sociais adequadas. Mas faça isso da sua casa. Fica em casa!

A quarentena não é uma decisão que cabe a algum político, especialmente no Brasil. A gente teve essa prerrogativa: chegou aqui depois de chegar em outros centros. A gente só precisa seguir as condutas e práticas realizadas no mundo, respeitar a decisão da imensa maioria dos médicos e infectologistas, que a nossa chance de sair dessa com mais rapidez e menos dor é imensa. E, adivinha só: a recomendação é ficar em casa! Fica em casa!

Defender o isolamento vertical ajuda a alimentar uma falsa sensação de segurança. E não faz de você alguém preocupado com a economia. Faz de você um vetor. Faz de você alguém perigoso que está carregando o vírus por aí.

Quer ajudar? Fica em casa.

E não precisa ser pelo o que seu político favorito falou ou deixou de falar. Faça pelo seu vizinho, por quem trabalha com você, por quem você vai esbarrar da porta para fora. Faça pelo seu semelhante. Ame o próximo como a si mesmo.

Por favor: fica em casa..